Eu não me lembro como ela surgiu. Acho que não nascemos juntas, mas às vezes tenho a impressão de que, de um modo ou de outro, ela sempre esteve por aqui.
Há tempos atrás eu me lembro da sua existência... Não chegava a tomar conta de mim - não que eu tenha me dado conta disso, pelo menos - , mas estava presente com aquele cinza inconfundível. Não tinha descoberto ainda quem ela era de verdade, isso só com o tempo mesmo.
Até que um dia, não lembro como nem porquê, eu me dei conta. Ela era ela, e estava lá, ocupando aquela parte que não era sua (ou será que era?). Foi difícil eliminá-la, ou deixá-la de lado talvez. Mas foi que ela se foi, ou pelo menos se escondeu...
Se se foi voltou, se se escondeu ressurgiu. Com toda a força que podia, lá estava ela de novo, a ponto de ter me deixado perder dentro dela. Era como se eu e ela fossemos uma só, ou como se simplesmente eu não existisse mais em mim porque ela havia ocupado todo o espaço, então.
E eu a expulsei mais uma vez, finalmente voltei a mim sem me confundir com ela... Sempre com medo de que ela ressuscitasse aqui dentro, não sei como aguentaria-na novamente. Resolvi ignorar qualquer manifestação de sua presença... Mas ela é insistente, e há vezes que não há como não notar os seus acenos.
"É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo." - Clarice Lispector
quinta-feira, 24 de abril de 2008
sexta-feira, 18 de abril de 2008
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