Se estou aqui escrevendo, é porque, como de costume, me lembrei desse espaço pra extravasar meus pensamentos...
Eu já tive medo de falar o que sinto, de perguntar, de enfrentar as situações... Até que um dia, cansada de viver o 'e se...', resolvi viver o 'e é', arcando com todos os custos de me arriscar e de me expor, que geralmente foram grandes. Mesmo tendo quebrado a cara, percebi que era o melhor pra mim e pra minha consciência: antes a dor do sofrer do que a dor do medo de sofrer, e a eterna dúvida do 'e se...'.
Pois bem, hoje eu percebi o quanto agir assim pode ser ruim quando se está lidando com alguém que faz a outra escolha. É difícil aceitar algo que hoje eu entendo como covardia. Pode ser um pouco forte o termo, mas é como vejo tal postura hoje. Medo da dor? Hoje não vejo mais a dor como oposta a todos os sentimentos prazerosos, mas sim como parte deles. Mesmo as coisas boas são feitas das coisas ruins, nada é tão puro como se gostaria...
E mesmo o sofrimento é feito de coisas boas. Ao olhar para trás, me lembro de toda dor que passei, e de como ela me tornou quem sou hoje... Me ensinou a ser tantas coisas: uma mulher mais decidida, mais firme, mais corajosa, mais madura, mais sensível. A questão é como se olha para o que se viveu: adotar a postura do lamento eterno é reacender a dor a cada pensamento; aprender com o sofrimento é crescer.
Agora sinto dor... Ela vem da impotência diante de uma situação em que o que penso não valeu. E não me engano: por ora, vem também do lamento do tipo 'isso de novo, até quando?'. Eu vejo os fragmentos do que já passou, e lá vem a pontada no peito. Mas, assim como o resto, sei que daqui a pouco ela se vai, e então poderei deixar de mascarar a apatia com uma forçada simpatia com a vida.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Pois bem
Pois bem, eu sofro. De vez em quando melhora e eu acho que não vou sofrer mais por isso, de vez em quando piora, mas ainda é controlável, e de vez em quando atinge um ápice que não me lembrava mais que era possível.
Eu não quero ouvir que não vale a pena sofrer, disso eu sei. Aliás, todos que sofrem por algum motivo sabem que não vale a pena, mas se fosse simples assim, o óbvio é que ninguém sofreria. Também não quero ouvir que eu não mereço isso e que tudo vai dar certo pra mim, não estou preocupada com isso. Tampouco quero ouvir que alguém me entende, me desculpe, mas ninguém está no meu lugar. Não digo com isso que a minha dor é a maior do mundo, pois sei que não é... Mas ninguém pode dizer que me entende, assim como eu não posso dizer que entendo uma pessoa que está sofrendo pelo motivo que seja, pois não estou no lugar dela pra saber o que ela sente. No máximo, alguém pode imaginar saber como é...
Eu não quero ouvir, eu quero ser ouvida... Mas não sei mais o que tenho pra falar.
"Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro". (Clarice Lispector, "A Paixão Segundo G.H.")
Eu não quero ouvir que não vale a pena sofrer, disso eu sei. Aliás, todos que sofrem por algum motivo sabem que não vale a pena, mas se fosse simples assim, o óbvio é que ninguém sofreria. Também não quero ouvir que eu não mereço isso e que tudo vai dar certo pra mim, não estou preocupada com isso. Tampouco quero ouvir que alguém me entende, me desculpe, mas ninguém está no meu lugar. Não digo com isso que a minha dor é a maior do mundo, pois sei que não é... Mas ninguém pode dizer que me entende, assim como eu não posso dizer que entendo uma pessoa que está sofrendo pelo motivo que seja, pois não estou no lugar dela pra saber o que ela sente. No máximo, alguém pode imaginar saber como é...
Eu não quero ouvir, eu quero ser ouvida... Mas não sei mais o que tenho pra falar.
"Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro". (Clarice Lispector, "A Paixão Segundo G.H.")
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Teoria e prática
Há muitas coisas que sabemos e relembramos de modo ainda mais vívido quando repetimos o mesmo erro novamente e novamente. Mas uma coisa é saber, outra é praticar. Se colocar em prática certas descobertas fosse tão fácil tudo seria tão simples, bastaria descobrir o que está errado e pronto, num passe de mágicas tudo estaria perfeito... Há, contudo, essa barreira por vezes intransponível entre teoria e prática.
Hoje me lembrei de uma verdade distante, porém constante no sentido que sempre reaparece para afirmar sua existência. E por vezes eu finjo que essa verdade não é mais minha, tenho a ilusão de que reconhecê-la no passado e pensar que afirmando que não a quero mais pra mim, que aprendi, vai fazer com que a supere. Até que chega uma hora em que ela está lá: dou de cara com ela ali parada em minha frente, sua presença em outra forma faz parte do jogo de se adequar às minhas situações. Ali está ela, sorrindo pra mim num sorriso cínico, como quem diz "ahá, eu ainda existo".
Mas pra superar essa verdade - que é uma mentira, já me disseram tantas vezes, mas dizer apenas não basta - é preciso mais do que reconhecê-la e saber que ela ainda existe. É preciso mais do que saber que ela é uma mentira. Eu só vejo esse abismo entre saber e fazer, abismo esse que no momento é maior do que o salto que minhas pernas podem dar. Eu não sei o que fazer com essa verdade-mentira, queria poder riscá-la da minha agenda como risco as coisas que não preciso lembrar mais porque já passaram.
Mas há algum mérito nisso tudo, só pra não ser pessimista demais: reconhecer um problema pode não significar solucioná-lo, mas ao menos é o primeiror passo para superá-lo - afinal, ninguém resolve uma questão que não existe para si.
Hoje me lembrei de uma verdade distante, porém constante no sentido que sempre reaparece para afirmar sua existência. E por vezes eu finjo que essa verdade não é mais minha, tenho a ilusão de que reconhecê-la no passado e pensar que afirmando que não a quero mais pra mim, que aprendi, vai fazer com que a supere. Até que chega uma hora em que ela está lá: dou de cara com ela ali parada em minha frente, sua presença em outra forma faz parte do jogo de se adequar às minhas situações. Ali está ela, sorrindo pra mim num sorriso cínico, como quem diz "ahá, eu ainda existo".
Mas pra superar essa verdade - que é uma mentira, já me disseram tantas vezes, mas dizer apenas não basta - é preciso mais do que reconhecê-la e saber que ela ainda existe. É preciso mais do que saber que ela é uma mentira. Eu só vejo esse abismo entre saber e fazer, abismo esse que no momento é maior do que o salto que minhas pernas podem dar. Eu não sei o que fazer com essa verdade-mentira, queria poder riscá-la da minha agenda como risco as coisas que não preciso lembrar mais porque já passaram.
Mas há algum mérito nisso tudo, só pra não ser pessimista demais: reconhecer um problema pode não significar solucioná-lo, mas ao menos é o primeiror passo para superá-lo - afinal, ninguém resolve uma questão que não existe para si.
"Se fazer fosse tão fácil quanto saber o que seria bom fazer, as capelas seriam igrejas, e as choupanas dos pobres, palácios de príncipes." (William Shakespeare)
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Ah sim, medo
E eu também tenho medo. Me assusta essa tranquilidade intensa que toma conta de mim depois de bons momentos... É estranho dizer isso, eu sei; afinal, o que poderia estar errado quando tudo parece estar certo? Não sei.
Ontem um encontro e uma conversa me fizeram rir tanto, de quase faltar o ar... Daí então me veio aquela alegria, que não é qualquer alegria: um sentimento tão agudo mas tão simples do qual por vezes me esqueço. Certas companhias tem me feito recordar isso ultimamente. Mas eu tenho medo, tenho medo do que pode estar por trás disso. Não sei porque - ou talvez até saiba - mas tenho medo do que é intenso. Eu desconfio do que me parece exagerado: será isso verdadeiro?
Pois sim, eu tenho medo. Mas meu medo é sereno, ele não me paraliza, tampouco me faz andar pra trás... Tenho medo do exagero, tenho medo do novo, tenho medo do que não conheço ou do que não entendo. Mas tenho mais medo da inércia: a idéia de não sair do lugar me assusta profundamente. E foi assim que eu aprendi que era melhor viver o novo, mesmo que não pareça seguro a principio, e mesmo que eu tenha medo. E mesmo que eu não saiba o que há por trás disso - se é que há algo. E então eu vivo.
"Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade." (Clarice Lispector)
Ontem um encontro e uma conversa me fizeram rir tanto, de quase faltar o ar... Daí então me veio aquela alegria, que não é qualquer alegria: um sentimento tão agudo mas tão simples do qual por vezes me esqueço. Certas companhias tem me feito recordar isso ultimamente. Mas eu tenho medo, tenho medo do que pode estar por trás disso. Não sei porque - ou talvez até saiba - mas tenho medo do que é intenso. Eu desconfio do que me parece exagerado: será isso verdadeiro?
Pois sim, eu tenho medo. Mas meu medo é sereno, ele não me paraliza, tampouco me faz andar pra trás... Tenho medo do exagero, tenho medo do novo, tenho medo do que não conheço ou do que não entendo. Mas tenho mais medo da inércia: a idéia de não sair do lugar me assusta profundamente. E foi assim que eu aprendi que era melhor viver o novo, mesmo que não pareça seguro a principio, e mesmo que eu tenha medo. E mesmo que eu não saiba o que há por trás disso - se é que há algo. E então eu vivo.
"Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade." (Clarice Lispector)
domingo, 15 de novembro de 2009
Ser
"Sou uma filha da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo." (Clarice Lispector)
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo." (Clarice Lispector)
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Falar
Fazendo pesquisa em antropologia, aprendi uma coisa que me passou a ser muito útil: não toque em assuntos que não estão postos para seus agentes, espere as questões surgirem naturalmente. Isso passou a ser importante pra minha vida acadêmica, mas não pra minha vida como um todo. Porque há muito tempo eu venho aprendendo a falar o que penso, mesmo sendo algo que a outra pessoa não espera e/ou não vai gostar.
Há um pouco mais de dois anos, uma situação me ensinou como era importante dizer o que estava pensando. Percebi que ficar no "e se eu tivesse dito...", "e se eu tivesse feito..." era angustiante demais pra ser vivido, e aos poucos fui aprendendo a ser alguém que tem coragem pra falar. E então eu falo. Falo pra amiga, pro amigo, pra mãe, pra irmã, pro orientador, pro menino que fica na porta do metrô, pra pessoa que eu conheço, pra que eu desconheço, e pra que eu tento conhecer. Falo com jeito, falo sem jeito, fico sem jeito, falo na lata... Mas falo, sem saber o que esperar, ou mesmo sabendo o que esperar... Um xingamento, um sorriso, uma mágoa, um descaso, um desmaio, uma alegria, um abraço, uma compreensão inesperada, uma confusão inesperada, uma briga, uma conciliação...Isso pouco importa, o que importa é que seja verdade.
"A palavra é o meu domínio sobre o mundo." (Clarice Lispector)
Há um pouco mais de dois anos, uma situação me ensinou como era importante dizer o que estava pensando. Percebi que ficar no "e se eu tivesse dito...", "e se eu tivesse feito..." era angustiante demais pra ser vivido, e aos poucos fui aprendendo a ser alguém que tem coragem pra falar. E então eu falo. Falo pra amiga, pro amigo, pra mãe, pra irmã, pro orientador, pro menino que fica na porta do metrô, pra pessoa que eu conheço, pra que eu desconheço, e pra que eu tento conhecer. Falo com jeito, falo sem jeito, fico sem jeito, falo na lata... Mas falo, sem saber o que esperar, ou mesmo sabendo o que esperar... Um xingamento, um sorriso, uma mágoa, um descaso, um desmaio, uma alegria, um abraço, uma compreensão inesperada, uma confusão inesperada, uma briga, uma conciliação...Isso pouco importa, o que importa é que seja verdade.
"A palavra é o meu domínio sobre o mundo." (Clarice Lispector)
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Sorrio
De vez em quando sinto uma indiferença tão grande que não acredito que seja eu mesma. E eu já não me importo tanto quanto me importaria... Mas eu sorrio. Sorrio porque uma sábia mulher um dia me ensinou a ficar sempre de cabeça erguida, por mais que não se queira erguer a cabeça, ou qualquer mísero músculo do corpo. E sorrio porque quem sabe assim eu acredito que tudo está sempre bem. Porque ser pedante a ponto de se lamentar sempre também cansa. Então eu sorrio, sorrio... Sorrio porque as pessoas que amo tem precisado de um sorriso meu mais do que eu mesma, e eu não vejo a hora de isso acabar, porque eu também quero poder ser um pouco marrenta e não sorrir. E quero poder também me entregar à minha indiferença, à minha falta de vontade em relação ao que me fazia sorrir um sorriso tão sincero. Nos últimos meses há dias em que sinto cada vez mais sono e cada vez menos fome, o que será que isso quer dizer? Tem dias em que só quero ficar quietinha no meu cantinho, mas resolvo ignorar meu desejo e ser alguém que nem sempre sou inteira, quase inteira, ou apenas pela metade, mas que, apesar das forças contrárias, sou eu. Um dia já achei que meu eu fosse Ela, mas hoje sei que não... Eu aprendi a mandá-la embora, por mais que custe às vezes resistir aos seus acenos, aprendi a diferenciá-los... Não posso ser sempre alegre por dentro e por fora, e isso não é o fim do mundo, e nem mesmo é um sinal dela, sempre.
E eu fiquei pensando no que alguém me disse ontem sobre meu sorriso alegre e meu olhar triste (ou vice-versa, não me lembro ao certo)... Eu não sou uma coisa só, mas sorrio.
E eu fiquei pensando no que alguém me disse ontem sobre meu sorriso alegre e meu olhar triste (ou vice-versa, não me lembro ao certo)... Eu não sou uma coisa só, mas sorrio.
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